Número de categorias com reajuste salarial abaixo da inflação quintuplicou em 3 anos

Dados divulgados recentemente pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos) dão uma ideia de como as condições de vida pioraram para a maioria dos brasileiros nos últimos anos. Ao longo de 2021, 47% das categorias de trabalhadores analisadas pelo centro de estudos teve reajustes salariais abaixo da inflação. O número é cinco vez maior do que a média registrada em 2018: 9%.

Fevereiro de 2022, último mês analisado pelos pesquisadores, registrou a impressionante marca de 60,5% das categorias com reajustes abaixo da inflação, pior resultado para um mês pelo menos desde 2008, quando o Dieese começou a analisar um conjunto fixo de categorias. Ainda nesse mês, 15,1% das categorias tiveram reajuste igual à inflação e apenas 24,4% tiveram reajustes superiores.

O índice de inflação utilizado é o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) acumulado de 12 meses, medido pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em fevereiro de 2022, esse índice ficou em 1,00% e, ao longo de 2021, ficou em 10,16%, pior resultado para um ano desde 2015.

A inflação alta prejudica duplamente os trabalhadores. Por um lado, ela corrói a renda e diminui o poder de compra dos salários. Por outro, ela dificulta reajustes reais dos salários, como os dados do Dieese têm demonstrado.

A proporção de reajustes salariais abaixo da inflação entrou num patamar muito elevado a partir do final de 2020, justamente quando a inflação avança. Ao longo de 2020, por exemplo, mesmo com os impactos da pandemia de Covid-19, os reajustes abaixo da inflação se mantiveram num patamar moderado, semelhante ao registrado em 2019 (já superior aos 9% registrados em 2018).

A inflação alta pressiona os trabalhadores a cobrar reajuste nos salários, mas permite que os empregadores deem reajustes inferiores às perdas com a inflação. Afinal, os custos também aumentam para a maioria das empresas, que veem as suas margens de lucro diminuírem.

Outro fator desfavorável para os trabalhadores é a grande quantidade de desempregados, desalentados (pessoas que desistiram de procurar emprego) e subocupados (pessoas que trabalham menos horas do que poderiam trabalhar). Esse “exército de reserva” tem se mantido num nível alto desde 2016, início do atual ciclo de crises econômicas, apesar da recuperação recente.

Com mais gente fora do mercado de trabalho, menor a força de negociação dos trabalhadores por melhores salários. Durante a pior fase da pandemia, por exemplo, os sindicatos se concentraram em segurar as demissões e cobrar melhores condições sanitárias nos ambientes de trabalho, conforme explica Victor Pagani, supervisor técnico do escritório do Dieese em São Paulo.

Ele também comenta que, a partir de agora, com o arrefecimento da pandemia, o foco dos sindicatos volta a ser os reajustes salariais. No entanto, com a expectativa de que a inflação continue alta e a economia cresça pouco em 2022, aumentar salários continuará a ser um grande desafio para os trabalhadores.

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Amaury Nogueira
Amaury da Silva Nogueira é bacharelando em Letras/Edição pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Apaixonado pelo universo da escrita, atua há dois anos como redator e realiza pesquisas sobre história da edição no Brasil. Além disso, atualmente pesquisa também sobre direitos e benefícios sociais para agregar conhecimento na redação do portal de notícias FDR.