O que é a inflação? Economista explica porque e como esse indicativo vem afetando milhares de brasileiros

Brasil registra uma das maiores inflações da sua história, reduzindo o poder de compra e venda da população. O último levantamento do IBGE relevou que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), responsável por medir a inflação oficial, ficou em 0,47% em maio. Isso significa dizer que sanar os débitos tem sido cada vez mais difícil para a população. Abaixo, entenda como esse indicativo afeta o seu bolso.  

A palavra do momento no Brasil é inflação. Diversos portais de notícia estão notificando os impactos da falta de estabilidade política de modo que o país entrou em crise. A cesta básica está cada vez mais cara, os combustíveis seguem em constante reajuste, o que significa dizer que o rendimento nacional vem declinando consideravelmente.  

Nos últimos 12 meses, o IBGE registrou uma inflação acumulada de 11,73%. Há noves meses consecutivos que são reajustados os valores de produtos e serviços. Da compra de passagens aéreas, até a feira doméstica, tudo está mais caro.  

Para aqueles que estão sentido no bolso, mas não compreendem efetivamente o que é a inflação e como ela afeta diretamente as contabilidades domésticas, o FDR convidou o economista Marco Cordeiro, para uma entrevista exclusiva.  

Abaixo, ele explica o que é a inflação, como ela funciona e por quais motivos está levando milhares de brasileiros à extrema pobreza. Acompanhe:  

O que é a inflação?  

A inflação é o aumento generalizado e persistente dos preços de bens e serviços em uma economia. 

O que faz a inflação aumentar ou diminuir? 

Podemos afirmar que há dois tipos de inflação; Inflação de Demanda, aquela em que a procura (demanda) por bens e serviços é maior que a oferta (produção ou disponibilidade) dos bens e serviços no mercado, então: quanto maior a demanda e menor a oferta, os preços tendem a subir. Há também a Inflação de Custos, nesta não há aumento de demanda, e ocorre por conta de paralizações na produção, aumento de salários, e principalmente por conta de aumentos nos preços dos insumos/matérias-primas, como matéria prima importada, entre outras. 

Para que serve os índices de inflação? Quais podemos utilizar para medir seu controle? 

Na história do Brasil, também tivemos a Inflação Inercial, a qual não dependia da demanda, ou custo, mas esta inflação acontecia com base no histórico dos períodos anteriores, assim, a inflação de janeiro e fevereiro determinava a inflação de março, e essa crença determinava o índice de inflação para os contratos e outras atualizações. Mas havia um choque em relação a demais fatores como o reajuste do salário do trabalhador. E desta forma, os índices surgem para balizar essa relação. Por exemplo, ao comprar um imóvel, o reajuste do preço por conta da inflação poderia ser imprevisível em sua determinação num contrato de compra e venda. Hoje, por exemplo: quem compra um imóvel em construção, sabe que o saldo devedor pode ser reajustado pelo índice Nacional da Construção Civil (INCC), então a cada ano seu contrato terá o valor das parcelas reajustado por este índice, que é calculado por uma cesta de produtos da construção civil em todos os Estados brasileiros, pela variação de seus preços nos últimos 12 meses. Há muitos outros índices, como o IGP-M (Índice Geral de Preços – Mercado) calculado pela FGV, mensalmente, o que nos ajuda a ter uma percepção real da inflação que está ocorrendo nos mais diversos produtos e serviços. 

Qual a relação entre a inflação e o dólar? Como o reajuste da moeda americana impacta no bolso do brasileiro?  

A relação se dá pela taxa de câmbio, que quanto maior for a desvalorização do real, o que significa uma alta na taxa de câmbio (necessito entregar maior número de reais para uma unidade de dólar), todos os produtos importados sofrem aumento, pois passam a ter um custo maior. Hoje, grande parte dos produtos são importados, ou suas partes e peças, insumos ou matérias-primas, e tudo isso depende de moeda estrangeira (dólar), assim como o frete internacional (que também possui valor em dólar). É possível observar isso nos últimos meses no mercado automotivo, com a falta de componentes importados, e o preço dos carros, até mesmo os usados. 

https://www.youtube.com/watch?v=LL2AyOgvHTE

Afinal, o que é a política monetária e porque ela interfere na renda da população? 

Para que todos possam entender de forma mais simples, a Política Monetária tem como objetivo o controle de moeda (dinheiro) em circulação na economia, e utiliza os instrumentos para ingresso ou retirada de dinheiro, promovendo uma política expansionista (maior volume/oferta de dinheiro em circulação), ou uma política contracionista (menor volume/oferta de dinheiro em circulação na economia), pois a quantidade de dinheiro impacta diretamente na inflação. O instrumento de política monetária mais conhecido é a Taxa de Juros, que torna o custo do dinheiro mais caro ou barato, e desta forma impacta nos financiamentos, no crédito, correções de valores por contas em atraso, entre outros, impactando diretamente na população brasileira, que muitas vezes precisa de dinheiro em forma de financiamentos, ou compras a prazo, uma vez que há inflação praticamente mensal, e o reajuste salarial apenas uma vez no ano.  

Porque o Brasil está com a inflação tão alta?  

Na verdade, há uma série de fatores, mas o principal deles foi a Pandemia do Civid-19, que desencadeou uma grande parada nos processos produtivos, e também o aumento dos insumos importados. A redução dos processos produtivos, também engloba alguns serviços, como os fretes internacionais; uma menor disponibilidade de navios inflacionou o valor dos fretes, e esse aumento foi repassado nos produtos, como o caso dos combustíveis, entre outros. 

Porque a inflação faz os alimentos ficarem mais caros?  

A inflação torna todos os produtos mais caros, mas no Brasil toda Cadeia de Suprimentos relacionada aos alimentos, depende de transporte rodoviário, e o aumento dos combustíveis refletiu em muito nesses aumentos; mas também não podemos esquecer que alguns alimentos foram deixados de plantar em função de outros, então a lei da demanda (quando a procura é maior que a oferta), provoca também a elevação de preços de produtos, sem contar safras, geadas, ausência de chuvas, entre outros fatores. É bastante complexo, cabe a análise de diferentes produtos alimentícios, pois alguns podem ter aumento de preços por uma razão diferente de outros. Mas por ter aumentado o preço, influenciaram o processo inflacionário. 

Gasolina tem alta de 73% somente neste ano. Qual o motivo desse reajuste continuo?  

Em governos passados, foi determinado que a Petrobrás deveria tratar a venda do combustível como base no mercado externo de commodities, assim, os combustíveis vendidos no mercado interno obedecem ao preço ofertado ao mercado externo. Não podemos esquecer que quanto maior a demanda mundial por petróleo e menor a oferta deste (agora agravada pela Guerra entre Rússia e Ucrânia), bem como a necessidade de o combustível brasileiro ter uma mistura de petróleo importado, e com a alta do preço do frete internacional, aumento do preço do petróleo importado e a taxa de câmbio, todos esses fatores impactaram nesses aumentos absurdos no preço dos combustíveis brasileiros.  

Há uma previsão de estabilidade econômica até o fim do ano?  

As eleições no Brasil acontecem em outubro, até lá devemos continuar com praticamente tudo igual, embora há um grande esforço do governo em melhorar alguns indicadores econômicos, e é verdade também que alguns fatores já obtiveram uma melhora real, como a queda do número de desempregados no Brasil, e há também o aumento do PIB no último trimestre. Desta forma, podemos dizer que haverá melhoras até o fim do ano, mas a palavra “estabilidade” é complexa para afirmarmos de forma simplista, pois dependemos de muitos fatores da economia mundial. 

Qual o papel do governo no controle da inflação? 

O governo tem papel fundamental no controle da inflação; desde 1998 temos as Metas da Inflação. E o governo utiliza dos instrumentos de política monetária para atingir as metas da inflação, e cabe ao Banco Central a execução dessas políticas. 

 

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Eduarda Andrade
Maria Eduarda Andrade é mestra em ciências da linguagem pela Universidade Católica de Pernambuco, formada em Jornalismo na mesma instituição. Enquanto pesquisadora, atua na área de políticas públicas, economia criativa e linguística, com foco na Análise Crítica do Discurso. No mercado de trabalho, passou por veículo impresso, sendo repórter do Diario de Pernambuco, além de assessorar marcas nacionais como Devassa, Heineken, Algar Telecom e o Grupo Pão de Açúcar. Atualmente, dedica-se à redação do portal FDR, onde já acumula anos de experiência e pesquisas sobre economia popular e direitos sociais.