ENEM e a crise do coronavírus: as dificuldades nos estudos para a prova durante a quarentena, reforçam as diferenças sociais entre os que disputam vagas para Universidades Públicas e Privadas.

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ENEM e a crise do coronavírus: governo se encontra no maior desafio da história do exame. (Imagem: FDR)
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Mesmo com pedidos de adiamento das inscrições e realização das provas, o Ministério da Educação decidiu manter as datas do exame. As inscrições estão abertas até o dia 22 de maio.

Para que serve o ENEM?

O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) é o define o futuro de toda uma geração de brasileiros. A prova faz parte de um projeto muito maior: Dar acesso à educação de qualidade à cada vez mais brasileiros.

Tornar o ensino superior acessível para mais brasileiro é a maneira mais importante de se reduzir a enorme desigualdade em nosso país.

Por isso que destinamos uma parcela dos nossos impostos para a construção e manutenção de Universidades Públicas de qualidade e gratuitas, para que todo brasileiro independente de sua origem tenha acesso a uma universidade e possa melhorar o futuro de sua família.

Por outro lado, mesmo com uma missão tão nobre, o ENEM tem como barreira a diferença no ensino oferecido às crianças brasileiras.

É obrigação do Ministério da Educação criar medidas para equilibrar e compensar essas diferenças, para que as vagas de ensino públicas estejam realmente ao alcance de todos os estudantes brasileiros.

Medidas como “A Hora do ENEM”, programa aberto da TV Escola com conteúdos gratuitos para a preparação do exame, são exemplos de medidas para equilibrar essa competição.

A quarentena afeta os estudantes brasileiros a prestarem o ENEM

Porém as medidas atuais não são suficientes durante a crise financeira e de saúde pública que vivemos.

Os estudantes da rede pública já têm dificuldade para acompanhar as aulas, com o fechamento das escolas muitos estudantes não terão como se preparar para essa prova tão importante.

Após  a suspensão das aulas presenciais, a maioria dos alunos da rede pública ainda não acesso ao ensino à distância, as escolas e professores também não receberam nenhum preparado ou equipamento para realizar essa mudança.

Além da falta de aulas, podemos encontrar muitas barreiras para os estudantes mais pobres estudar em casa. Analisando os dados da última Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (PNAD – 2018) encontramos:

  • Apenas 41,7% das casas brasileiras têm um computador, este número cai para 14,3% nas zonas rurais;
  • 20,9% das casas não têm nem ao menos acesso à internet, nas zonas rurais esse número é de 50,8%;
  • No estados das Regiões Norte e Nordeste a porcentagens de domicílios sem nenhum acesso à internet é ainda menor: 22,8%  nas zonas urbanas e 55,8% na áreas rurais.

Mesmo com tantas barreiras, milhões de estudantes brasileiros continuam buscando maneiras de estudar e se preparar para os próximos vestibulares.

Como alguém que já passou por essa fase de pré-vestibular, sei muito bem como é exigido muito estudo e preparação para ingressar em um Universidade Pública.

O que não posso imaginar é passar por isso durante uma crise tão grave, onde além de ficar sem acesso às aulas, os estudantes ainda passam por graves problemas financeiros na família.

Mesmo com tanto esforço e estudo, não é justo aplicar um exame tão importante para o futuro destes alunos neste momento.

Visto que a parte dos estudantes que felizmente tem acesso à internet e cursos de preparação para o ENEM, está em um posição muito mais favorável para realizar a prova.

Manter o exame neste ano é praticamente deixar os estudantes mais pobres de fora das Universidades Públicas em 2021.

Se isso acontecer, todo o motivo pelo qual o ENEM existe deixa de ser válido. Como garantir que todo estudante brasileiro tem o acesso à Universidade Pública se boa parte dos alunos não tem como assistir aulas ou se preparar?

Não podemos exigir uma competição entre uma população com tantas desigualdades. Esperamos que soluções sejam encontradas, não apenas para adiar o exame, mas para garantir que todos os alunos que estão concluindo o Ensino Médio, de escolas particulares e públicas, tenham acesso à educação, mesmo durante o isolamento.

Sandro Messa possui bacharelado em Ciências e Humanidades e Ciências Econômicas pela Universidade Federal do ABC (UFABC). No mercado de trabalho, tem passagem pelo Banco Mercantil do Brasil, como gerente de relacionamento. Atuou também como assessor de investimentos no Itaú Personnalité e na XP Investimentos. Atualmente, trabalha como Consultor Financeiro e dedica-se à redação do portal FDR.