Enquanto a discussão sobre a redução da jornada avança no Congresso, especialistas e movimentos sindicais apontam que o impacto da mudança não é apenas econômico, mas um passo crucial para a justiça de gênero e o combate à sobrecarga feminina.

(Foto: Jeane de Oliveira/FDR)
O debate sobre o fim da escala 6×1 — modelo em que se trabalha seis dias para um de descanso — ganhou as ruas e as redes sociais nos últimos meses. Embora a proposta prometa mais qualidade de vida para todos os trabalhadores, há um grupo que sente o peso dessa rotina de forma muito mais drástica: as mulheres.
Para elas, a redução da jornada de trabalho não é apenas uma questão de descanso laboral, mas uma ferramenta estratégica para enfrentar a desigualdade estrutural que as mantém presas a uma jornada dupla, ou até tripla.
O “tempo roubado” e a dupla jornada da mulher
A principal razão pela qual o fim da escala 6×1 beneficia mais as mulheres reside na divisão desigual do trabalho doméstico no Brasil.
Segundo dados do IBGE (Censo 2022), as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados com pessoas, enquanto os homens dedicam apenas 11,7 horas.
Na escala 6×1, o único dia de folga da mulher acaba sendo “engolido” pela necessidade de colocar a casa em ordem, cuidar dos filhos, fazer compras e organizar a semana seguinte.
Na prática, a trabalhadora não tem um dia de descanso real; ela apenas troca o local de trabalho: da empresa para o lar.
Saúde mental e exaustão
A secretária da Mulher Trabalhadora da CUT, Amanda Corcino, destaca que a jornada total (remunerada + não remunerada) é muito superior para o público feminino. “As mulheres nunca terão as mesmas 24 horas que os homens”, afirma.
Essa sobrecarga contínua tem reflexos diretos na saúde mental. O fim da escala 6×1 permitiria um segundo dia de folga que, idealmente, poderia ser dividido entre as tarefas domésticas e o lazer efetivo, reduzindo os índices de burnout e esgotamento físico que atingem desproporcionalmente as mulheres em setores como comércio e serviços — onde a escala 6×1 é predominante.

(Foto: FDR/Jeane de Oliveira)
O que as mulheres poderiam fazer no tempo livre
Além do descanso, o tempo livre adicional abre portas para a autonomia econômica. Com menos horas presas ao trabalho formal e doméstico acumulado, as mulheres passam a ter maior janela de oportunidade para:
- Estudos e Qualificação: Retomar cursos técnicos ou superiores, aumentando as chances de progressão na carreira.
- Participação Política: Estar presente em espaços de decisão, sindicatos e movimentos sociais.
- Autocuidado: Ter tempo para consultas médicas e atividades físicas, frequentemente negligenciadas pela falta de tempo.
Impacto econômico e novos postos de trabalho
Estudos da Rede Brasileira de Economia Feminista (REBEF) indicam que a redução da jornada para 40 horas semanais pode estimular a criação de novos postos de trabalho para suprir as lacunas operacionais.
Como as mulheres enfrentam taxas de desemprego historicamente mais altas que as dos homens, a reorganização do mercado de trabalho pode facilitar a inserção feminina em vagas formais e com melhores garantias previdenciárias.
