Os números da economia doméstica brasileira acenderam um sinal de alerta. De um lado, o país bateu recorde histórico de gente com o nome negativado, ultrapassando os 83 milhões de inadimplentes.
Do outro, mais de oito em cada dez famílias convivem com dívidas a vencer.
Juntos, esses dados desenham o retrato de um consumidor sufocado, e ajudam a explicar por que o comércio sente o aperto, com vitrines menos movimentadas e o temor de lojas fechando as portas.
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Nome sujo e o recorde de inadimplência: 83,7 milhões
O primeiro dado que impressiona vem do principal termômetro de calotes do país.
Segundo o Mapa da Inadimplência da Serasa, o Brasil chegou a 83,7 milhões de negativados em junho, tornando o mês o de maior número de inadimplentes de toda a série histórica, após 18 meses consecutivos de alta.
O perfil de quem está com o nome sujo revela a amplitude do problema.
Os brasileiros com idades entre 41 e 60 anos formam a maior fatia da população com o nome restrito, com 35,7%, seguidos pelas faixas de 26 a 40 anos, com 33,3%, dos maiores de 60 anos, com 20%, e dos jovens entre 18 e 25 anos, com 11%.
Nome sujo: um problema que virou estrutural
Mais preocupante que o número absoluto é a tendência de longo prazo. A inadimplência deixou de ser um fenômeno passageiro e se enraizou no orçamento das famílias.
Dados divulgados pela Serasa mostram que o número de brasileiros inadimplentes cresceu 38,1% em dez anos, saltando de 59 milhões em 2016 para patamares recordes em 2026.
Esse avanço que ocorreu mesmo em períodos de queda dos juros, indicando que o endividamento se tornou um problema estrutural.
A dificuldade de sair do vermelho fica clara na reincidência.
Quatro em cada dez brasileiros inadimplentes hoje já estavam nessa mesma condição há dez anos, o equivalente a cerca de 34 milhões de pessoas presas em um ciclo de dívidas.
E há um recorte social importante: quase metade dos inadimplentes, 48%, tem renda de até um salário mínimo, e outros 30% recebem até dois salários, o que mostra que o calote atinge com mais força quem tem menos.
81,6% das famílias com dívidas a vencer
O segundo grande indicador olha não para quem já atrasou, mas para quem carrega compromissos financeiros.
De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), 81,6% das famílias brasileiras relataram possuir dívidas a vencer em junho de 2026.
Há, porém, um lado menos sombrio nesses dados recentes.
O percentual interrompeu uma tendência de alta e ficou estável, enquanto a taxa de inadimplência das famílias, medida pela CNC, também se manteve estável, em 29,9% no mês.
Comparado a um ano atrás, o quadro ainda é de piora. Ambos os indicadores superam os patamares de junho de 2025, quando o endividamento era de 78,4% e a inadimplência somava 29,5%.
Sinais tímidos de melhora
O tempo médio de atraso das contas registrou a segunda queda consecutiva, para 64,8 dias, enquanto o peso das dívidas no orçamento familiar permaneceu em 29,3% da renda mensal.
Houve ainda melhora na composição do endividamento.
O percentual de famílias que se consideram pouco endividadas passou de 33,3% para 34,2% entre maio e junho, e a proporção das que afirmam não ter condições de pagar as dívidas caiu de 12,3% para 12,2%.
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