Quem cresceu tomando uma colher de Biotônico Fontoura para “abrir o apetite” talvez não saiba, mas estava ingerindo um produto com 9,5% de álcool na fórmula.
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E vamos combinar, o teor não era pouca coisa: equivale, em média, ao de um vinho espumante e chega a ser o dobro de uma cerveja comum.
A revelação voltou a circular agora porque completa 25 anos a decisão do governo federal que mudou tudo.
Foi proibido que tônicos, fortificantes e estimuladores de apetite tivessem álcool na fórmula — e o Biotônico, tradicionalíssimo, teve que se reinventar.
Antes da mudança, o produto era quase onipresente nos armários das famílias brasileiras. Dá para entender por que virou objeto de tanta memória afetiva.
De onde veio esse fortificante tão famoso?
A história começa em 1910, no interior de São Paulo. O farmacêutico Cândido Fontoura criou a fórmula com um objetivo bem pessoal: ajudar a esposa, que vivia se queixando de fraqueza e cansaço.
A receita original misturava sais de ferro, fosfatos e vinho — daí o slogan que ficou famoso, “ferro para o sangue e fósforo para os músculos e nervos“.
A proposta era combater a fraqueza e devolver o vigor, num tempo em que problemas como a anemia e as verminoses eram comuns pelo país.
O que Jeca Tatuzinho tem a ver com isso
Muita coisa. O grande salto do Biotônico veio de uma parceria genial com o escritor Monteiro Lobato.
Fontoura comprou os direitos do personagem Jeca Tatu e criou o Jeca Tatuzinho, o garoto-propaganda que virou símbolo do produto.
Na história em quadrinhos distribuída de graça, o Jeca vivia doente e sem forças por causa de vermes, até ser tratado e recuperar a energia — com o Biotônico entrando como o restaurador do vigor.
Foi uma jogada de marketing muito à frente do seu tempo: em vez de só anunciar, a marca contava uma história de transformação e criava vínculo emocional com o público.
O sucesso foi tão grande que o Almanaque Fontoura, revistinha anual com piadas, horóscopo, dicas de saúde e o Jeca Tatuzinho, chegou a ter tiragem de 100 milhões de exemplares no auge, em 1982.
E o jingle “bê a bá, bê é bé, bê i Bi… otônico Fontoura“, de 1978, é o que hoje chamaríamos de meme.
Por que o álcool foi retirado da fórmula?
A mudança veio por uma questão de saúde, principalmente das crianças.
Como o Biotônico era muito usado por elas, manter quase 10% de álcool em um produto infantil passou a ser considerado inadequado pelas autoridades sanitárias, que então proibiram o etanol nesse tipo de fortificante.
Com isso, a fórmula foi reformulada e o produto continua sendo vendido até hoje, já sem álcool.