Um crime vem se tornando comum no Líbano nos últimos meses. Impedidos de sacar grandes volumes de dólares de suas próprias contas bancárias, os libaneses têm invadindo bancos, feito reféns e exigido a retirada do próprio dinheiro.
A atitude é uma resposta à política dos bancos para os saques que limitaram a retirada mensal a US$ 400 (aproximadamente R$ 2.100) para conter a crise econômica que derreteu o valor da moeda local
O caso da libanesa Sali Hafiz ganhou projeção nacional, no mês de setembro, quando ao fazer a invasão de uma agência bancária, a cidadão canalizou o descontentamento da população por uma causa muito nobre: o pagamento do tratamento de câncer da sua irmã.
Assim, Sali foi detida pela polícia, após recuperar 12 mil dólares (R$ 62,7 mil) e uma quantia em moeda local de sua própria conta em assalto a uma agência bancária libanesa.
“Minha irmã está morrendo diante dos meus olhos”, disse ela em entrevista gravada logo após o assalto. “O banco nos roubou publicamente (…). Eu não posso machucar uma formiga, mas essa pessoa que não pode machucar uma formiga está vendo uma parte dela derreter e a maioria das pessoas apenas diz: ‘Que Deus a cure”, desabafou.
“Eu não poderia ficar de braços cruzados quando há um banco ao lado da minha casa no qual temos US$ 20 mil [depositados]”, complementou Sali.
A crise do Líbano e a retenção do dinheiro nos bancos
Este tipo de atitude desesperada vem se tornando cada vez mais comum conforme a crise econômica se aprofunda no Líbano. De acordo com o Banco Mundial, a crise econômica e financeira pode estar entre as três mais graves a nível global desde meados do século XIX.
Entre os principais e mais cruéis fatores da realidade de crise econômica no Líbano está a insegurança alimentar. Assim, o Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas estima que 46% das famílias não têm o suficiente para comer.
Além disso, o país ainda conta com falhas da rede elétrica – quase todos no país dependem hoje de geradores a gás – e abundância de fumaça tóxica no ar da capital, Beirute, que vêm sofrendo com um alto índice de superlotação.
Assim, muitos libaneses têm optado simplesmente por viver sem a energia elétrica, o que vem demandando a adaptação dessa parcela da população que tem apenas algumas horas de eletricidade disponível no dia.
Por fim, a população ainda convive com um desemprego cada vez mais presente e aqueles que se mantém trabalhando sofrem com salários abaixo do necessário para a subsistência.
Dessa forma, em meio à desvalorização constante da libra e à inflação de três dígitos, muitas famílias não conseguem comprar mantimentos básicos ou mesmo ter acesso à água potável.
