Rússia x Ucrânia: especialista explica origem do conflito e seus impactos econômicos

Conflito entre Rússia e Ucrânia impacta economia mundial. Nos últimos dias, a imprensa nacional e internacional vem acompanhando a guerra entre as potências europeias sob a interferência dos Estados Unidos. Economicamente, sabe-se que o valor do petróleo será afetado, além da sanção de uma série de reajustes tributários.

Apesar do conflito está entre os principais assuntos em todo o mundo, ainda há parte significativa da população que não compreende suas motivações e impactos. Abaixo, confira uma entrevista exclusiva ao FDR com Carlos Pamila, Professor e Coordenador da Área de Ciências Humanas do Colégio Motivo, explicando detalhes sobre o assunto.

De quando se originou o conflito entre a Rússia e a Ucrânia?

Pode-se dizer que a relação entre os dois povos se reportar ao século 9, portanto possuindo assim semelhanças culturais, religiosas e políticas. Mas, vamos à segunda metade do século XX, precisamente no ano de 1954, quando a URSS concede a região da Crimeia à Ucrânia para reforçar o apoio entre as duas principais nações soviéticas.

Com a dissolução da URSS em 1991, a população russa da Crimeia esperava que a península voltasse à Rússia. Em 2013, diversas manifestações aconteceram, após o anúncio do presidente Viktor Yanukovych da decisão de não assinar um acordo de cooperação com a União Europeia, as manifestações levaram a queda do presidente ucraniano.

O ano seguinte foi marcado pela invasão e anexação russa à península da Crimeia, inclusive com bombardeios e muitas mortes. Ano passado o presidente Putin endurece seu discurso contra o avanço da OTAN na Ucrânia e também seu posicionamento de não adesão do território ucraniano à União europeia, logo chegamos ao conflito que eclodiu no dia 24 de fevereiro.

O que representa a Otan e a entrada da Ucrânia na organização impactaria na Rússia em que sentido?

A OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), criada pelos Estados Unidos durante a Guerra Fria, tinha como oposição a EX- URSS (hoje 15 repúblicas, dentre elas a Rússia e a Ucrânia), a organização que hoje conta com 30 países integrantes, tem como objetivo principal a salvaguardar a liberdade e a segurança de seus membros por meios políticos e principalmente militares.

Para o presidente russo Vladimir Putin é essencial que o país vizinho esteja afastado da Otan, visto que outros países próximos já fazem parte da aliança militar. No caso de uma aliança com a Ucrânia, segundo Putin a organização usaria o país ucraniano como base militar, colocando em vulnerabilidade ainda mais o território russo.

Além dos locais separatistas, há registros bombardeios em outras cidades da Ucrânia. Isso representa exatamente o que para a comunidade internacional? Que a Rússia não somente quer regiões separatistas, mas toda a Ucrânia?

Não tenho dúvidas. Quando o Vladimir Putin assinou o decreto que reconhecia as regiões do leste da Ucrânia (Donetsk e Luhansk) como independentes, estaria no momento criando um livre acesso para as movimentações russas em direção à capital ucraniana, Kiev e outras cidades, como vem acontecendo.

A descentralização dos ataques é com objetivo de tomar todo o território ucraniano, as investidas estão acontecendo em pontos estratégicos (bases militares e aeródromos e setores de comunicação e energia).

Quando se analisa a logística bélica, por terra, por água e pelo ar, que foi organizada pela ofensiva russa, já se percebe que a escalada é na tentativa de dominação total.

As sanções econômicas aplicadas a Rússia, ao presidente e seus aliados, são suficientes para terminar com o confronto ou ameniza-lo?

Infelizmente nenhuma sanção trará novamente a vida das pessoas, porém essas sanções como, isolamento do sistema financeiro, limitação de patrimônio e acesso do país à tecnologia estratégica, tem como objetivo desestabilizar a economia russa e pressionar por uma saída diplomática para o conflito.

Acredito que o presidente Putin, já desenhava algo parecido do que já foi estabelecido como as sanções impostas pelos Estados Unidos e União Europeia, no entanto pelo discurso recente do presidente russo em criticar a algumas sanções, já demostra preocupação com sérias consequências futuras.

A cada sanção imposta o avanço do conflito pode ganhar velocidade retardada, como a remoção da Rússia do SWIFT, importante sistema de transações financeiras internacionais.

Os Estados Unidos congelaram os bens Rússia e do presidente em solo americano? Sendo o governo dos EUA um ferrenho crítico da Rússia, isso seria motivo para expandir os confrontos para a América?

As sanções impostas pelo presidente Joe Bider contra Putin incluem a proibição de viajar para os Estados Unidos, apesar dessa proibição a Putin, o mesmo ainda poderá viajar para as Nações Unidas, cuja sede fica em Nova York.

Lembrando que a Casa Branca anunciou também o congelamento dos investimentos de Putin e do ministro das Relações Exteriores da Rússia. A chance de um confronto direto entre essas duas potências é mínima, no entanto o jogo ideológico sempre vai existir, faz parte de uma (de)ordem mundial.

Que prejuízos econômicos a nível local (Ucrânia e Rússia), e global pode ocorrer, em um mundo que está saindo de dois anos difíceis de pandemia pelo coronavirus?

Quando a economia mundial estava deixando a UTI, e se deslocado para enfermaria devido às consequências da pandemia da COVID19, o risco de piora é eminente, devido ao conflito no leste europeu.

O conflito é geograficamente regional, no entanto as consequências econômicas são globais, isso devido a uma integração e cooperação entre os países que se aliaram e se organizaram em blocos econômicos.

Inflação elevada, menor crescimento, distúrbios no comércio global e alterações cambiais são algumas das consequências imediatas atreladas ao conflito.

A Ucrânia é um país de economia baseada na exportação de commodities, como por exemplo soja, milho, minério de ferro e o gás neônio, esse último que é usado em lasers que fazem parte do processo de fabricação de chips, se configura como uma problemática para a indústria de tecnologia mundial.

Com a redução da produtividade ucraniana, os produtos brasileiros e de outros países com mesmas características, podem se valorizar no mercado internacional e gerar ainda mais lucro ao agronegócio.

Por outro lado, o setor primário do Brasil, necessita dos fertilizantes que são produzidos em território russo, sendo assim com a diminuição da chegada desses fertilizantes o agronegócio brasileiro pode sentir os impactos de uma baixa na produção, influenciando em toda cadeia produtiva.

Não podemos esquecer que a Rússia é um dos maiores produtores de petróleo mundial, que inclusive o barril tende achegar a 130 dólares, trazendo assim um considerável aumento no preço dos derivados, isso será sentido em escala global.

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Eduarda Andrade
Maria Eduarda Andrade é mestra em ciências da linguagem pela Universidade Católica de Pernambuco, formada em Jornalismo na mesma instituição. Enquanto pesquisadora, atua na área de políticas públicas, economia criativa e linguística, com foco na Análise Crítica do Discurso. No mercado de trabalho, passou por veículo impresso, sendo repórter do Diario de Pernambuco, além de assessorar marcas nacionais como Devassa, Heineken, Algar Telecom e o Grupo Pão de Açúcar. Atualmente, dedica-se à redação do portal FDR, onde já acumula anos de experiência e pesquisas sobre economia popular e direitos sociais.