Consciência negra: Como empresas do mercado financeiro estão lidando a questão da inclusão

Pontos-chave
  • Mercado de trabalho ainda é muito desigual
  • Empresas criam projetos para incluir novos profissionais negros
  • Acompanhamento do cenário racial é prejudicado pela falta de dados

No último sábado, 20, foi comemorado o Dia da Consciência Negra. A dia é de extrema importância e nos lembra, entre outros assuntos, da falta da representatividade negra no mercado financeiro e também no geral. 

De acordo com especialistas consultados pelo E-Investidor, mesmo que a agenda de boas práticas sociais, ambientais e de governança, esteja em alta, a parte social, que inclui justamente a diversidade de raça, ainda não tem tanto apelo quanto as outras duas.

“As empresas ainda têm dificuldade de assimilar que precisam endereçar a questão do racismo enquanto uma parte das suas agendas ESG, independentemente do segmento, porque estamos falando de um problema social que atinge a maior parte da população. Então, é importante que as empresas entendam o seu papel na perpetuação desse sistema”, disse a mestra em Economia Política Mundial e fundadora da plataforma NoFront, Gabriela Chaves.

Falta de dados prejudica 

Uma das coisas que afeta a forma de mensurar como está o cenário racial no mercado de capitas é a falta de dados e informações, ativos fundamentais para que a redução da desigualdade saia do papel.

A B3, por exemplo, diz que não possui dados a respeito de raça e etnia no cadastro dos investidores. A empresa possui atualmente, cerca de 4 milhões de CPFs cadastrados. Deste total, 2,9 milhões são homens e 1,1 milhão são mulheres.

“Anunciamos, no começo do mês, apoio institucional ao Pacto de Promoção da Equidade Racial e outras associações do mercado financeiro fizeram o mesmo. Essa é uma forma de fazermos um movimento coletivo estimulando que as empresas adotem ações afirmativas”, disse a B3.

Falando sobre os três maiores bancos privados que operam no Brasil, Itaú, Bradesco e Santander, apenas o Bradesco informou que 27% de todo o quadro de funcionários são negros. 

“Esses números são destaque no setor financeiro e denotam o compromisso que temos com a sociedade frente ao crescimento constante”, disse o Bradesco em jota.

Serviços e produtos que conversem com o público preto 

“Quando vou desenhar um produto de investimento faz sentido já na fase um eu já colocar um tipo de investimento de risco, sendo que as pessoas pretas não tiveram acesso anterior a esse tipo de conhecimento?”

Este é o pensamento da co-fundadora e Chefe de Atendimento ao Cliente do banco digital Conta Black, Fernanda Ribeiro. O banco pretende entrar no mercado de investimentos e a profissional afirma que a mudança racial no mercado deve ser estrutural.

“A maioria dos meus interlocutores são homens brancos. Estamos em um processo de captação. Quando vou conversar com fundos e sento à mesa, a maioria das pessoas têm esse estereótipo”, disse.

Empresas tentam mudar o cenário 

  • Nubank

A área de tecnologia é uma das mais em alta na economia atualmente. Isto está causando um déficit de profissionais que deve chegar a 260 mil pessoas nos próximos três anos, mesmo com o alto índice de desemprego no país.

Neste ano, com o intuito de diminuir os impactos causados pela falta de diversidade no mercado tecnológico, o Nubank criou vários projetos dentro e fora da empresa, que inclui ações de capacitação, treinamento e recrutamento de pessoas. 

Para chegar neste resultado, a empresa traçou uma meta de contratar 2.000 pessoas negras até 2025 e lançou uma plataforma de recrutamento somente para seleção de talentos negros e negras. Esta plataforma já com cerca de 60 mil currículos.

  • XP

A XP irá lançar ainda este ano, um programa de formação de assessores de investimentos exclusivo para pessoas pretas.

O programa foi criado após a polemica foto tirada em um evento da Ável Investimentos, escritório ligado à XP, onde só existem basicamente homens brancos, jovens e sem nenhum negro. A imagem viralizou pelas redes sociais e a empresa foi acusada de racismo.

A XP irá custear também as certificações exigidas para a área financeira e irá encaminhar os profissionais para seleção de vagas nos escritórios autônomos da rede de parceiros da XP.

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Paulo Amorim
Paulo Henrique Oliveira é formado em Jornalismo pela Universidade Mogi das Cruzes e em Rádio e TV pela Universidade Bandeirante de São Paulo. Atua como redator do portal FDR, onde já cumula vasta experiência e pesquisas, produzindo matérias sobre economia, finanças e investimentos.