Dia da Mulher: Empreendedora fala sobre os desafios de investir no seu próprio negócio

Dia Mundial da Mulher reforça debates sobre o empreendedorismo feminino. A data de 8 de março é internacionalmente conhecida por evidenciar à luta pela igualdade de gênero. No mercado de trabalho, questões como equivalência salarial são pontos ainda em questão.

A liderança de mulheres têm sido cada vez mais evidenciada. Há diversas campanhas que estimulam o empreendedorismo feminino de modo que incentivem pequenas gestoras a iniciarem seus negócios.

Abaixo, acompanhe uma entrevista exclusiva com Ana Lima Brava, diretora e fundadora da Brava Comunicação. Ela explica como conquistou seu lugar no mercado de trabalho há mais de 20 anos, trazendo dicas sobre gestão e liderança. Confira.

Quais os maiores desafios de gerir uma empresa sendo mulher?

Quando abri a empresa, há 20 anos, eu não fazia ideia dessas diferenças de gênero e de como o mundo empresarial ainda é muito masculino e também machista.

Eu só me dei conta disso muito tempo depois, vendo, por exemplo, que os freelas negociados comigo eram menores que os freelas negociados com agências cujos donos eram homens. Tive que ouvir muitos comentários do tipo: “é tpm”, “é porque é mulher”, frases ditas por homens quando não conseguiam exatamente o que queriam, do jeito que queriam, na hora em que queriam.

Uma pesquisa do Sebrae revelou que metade dos empreendedores em fase inicial de negócio são mulheres. Nesta semana em que comemoramos o dia da mulher, como você enxerga este dado?

Acho que é uma conquista. Se as mulheres são maioria na população, talvez faça sentido que sejam maioria nos negócios, nos altos cargos, em tudo. Acredito que hoje elas são mais estimuladas à independência financeira e emocional dos homens.

Ainda que estejamos em 2022, sabemos que as mulheres, em sua grande maioria, sentem-se pressionadas para conciliar a vida pessoal e profissional. Como você faz e o que aconselharia para a mulher empreendedora que anda sobrecarregada?

Por trás de toda empreendedora e mãe, há uma pessoa muito, muito, muito cansada. Fomos ensinadas que só a mãe tem jeito para cuidar dos filhos, que se a criança está doente, é só o colo da mãe que ela quer. Isso de instinto maternal é muito bonito, mas é extenuante. Se a sociedade batesse insistentemente na tecla do instinto paternal e as funções fossem mais divididas, talvez não tivéssemos uma população de mulheres cada vez mais no limite de tudo. As mães precisam criar seus filhos para ter independência e responsabilidade com seus atos.

Falamos de dificuldades e obstáculos eventuais para a mulher empreendedora, mas você acredita que há um lado positivo também? Existem características mais particulares ao gênero que ajudam a mulher a entrar no mercado e empreender?

isso pode até existir, mas eu, particularmente, não sinto, não percebo. Não me acho mais sensível ou mais meticulosa que um homem. Temos órgãos e estruturas diferentes, mas creio que as características emocionais têm mais a ver com nossa estrutura de personalidade ou com o meio em que vivemos, a forma como fomos ensinadas. Acho que pessoas têm características diversas e algumas podem apresentar mais resistência ou persistência em um projeto ou momento de vida do que outras pessoas.

O que aconselha para as mulheres que gostariam de dar um passo a mais e iniciar um negócio próprio?

Estude, pesquise e planeje. Veja as vantagens e desvantagens de empreender, pois nem tudo são flores. Se tomar a decisão, acredite nela e não desista.

Na hora de selecionar seus funcionários, você busca priorizar a contratação de outras mulheres?

Procuro fazer uma análise técnica, mas as mulheres sempre foram maioria na agência. Hoje somos 15 pessoas, sendo 10 mulheres.

Como ser mulher empreendedora na crise e como sair mais forte dela?

Coloco na cabeça que o que não nos mata nos ensina a viver, porém confesso que há dias bem difíceis. Eu não tenho um segredo para enfrentar a crise. Quando não se tem muitas escolhas, a única opção é seguir em frente.

Levando em conta a sua experiência, quais os primeiros passos para uma mulher se tornar empreendedora?

Para qualquer gênero, o importante é estudar muito sobre o mercado em que se deseja empreender, conversar com pessoas da área e traçar seu plano de ação. No caso da mulher, é preciso saber que ainda há muito machismo e aprender a lidar e lutar contra isso.

Como lidar com o machismo diário e mostrar-se segura para manter o funcionamento do seu negócio?

Nem sempre a gente tem paciência para ir para o embate, para a contestação. Mas o simples fato de não rirmos de piadas machistas já é um bom começo.

O que você acha que ainda precisa ser modificado com relação à participação das mulheres nos negócios?

Ainda há homens que interrompem nossas falas, que fazem elogios desnecessários à beleza. Precisamos ocupar mais cargos decisórios e naturalizar tudo isso. Assim, deixaremos de comemorar a primeira mulher presidente, prefeita, aviadora, comandante, etc.

Quais são os direitos das mulheres que você gostaria de ver consolidados em um futuro próximo?

Meu sonho é que pudéssemos viver a vida sem tanto medo dos homens. Vejo notícias recentes sobre turismo sexual, sobre homens que se sentem donos dos corpos das mulheres. Só queria um mundo mais justo, mais seguro e menos cruel.

Por fim, o que você diria para uma mulher que sonha em empreender, mas não acredita em seu potencial?

Procurar saber por que razões ela não acredita nela, de onde veio isso, qual a origem desse pensamento destrutivo e limitador. Entender, acolher e se curar dessa limitação. A gente só aprende no erro e na persistência.

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Eduarda Andrade
Maria Eduarda Andrade é mestra em ciências da linguagem pela Universidade Católica de Pernambuco, formada em Jornalismo na mesma instituição. Enquanto pesquisadora, atua na área de políticas públicas, economia criativa e linguística, com foco na Análise Crítica do Discurso. No mercado de trabalho, passou por veículo impresso, sendo repórter do Diario de Pernambuco, além de assessorar marcas nacionais como Devassa, Heineken, Algar Telecom e o Grupo Pão de Açúcar. Atualmente, dedica-se à redação do portal FDR, onde já acumula anos de experiência e pesquisas sobre economia popular e direitos sociais.